A matemática da vida no Brasil da Lava Jato: A tirania do amor, de Cristovão Tezza

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Depois de tantos séculos de produção literária, é limitado o espaço para inovações e abordagens originais nos livros. À primeira vista, nada haveria de muito surpreendente em uma trama baseada na história de um homem de meia idade em crise de identidade e à beira do divórcio após a descoberta de uma traição conjugal. Seria impreciso, no entanto, resumir A tirania do amor (Todavia, 2018), o novo romance de Cristovão Tezza, a apenas essas linhas gerais de seu enredo. Apesar de apresentar temas e situações narrativas já bastante exploradas na ficção, a obra consegue propiciar uma instigante experiência de leitura em virtude tanto de seu trabalho estilístico e textual quanto da profundidade e da contemporaneidade das reflexões empreendidas pelo protagonista.

Ao longo das 173 páginas do romance, acompanhamos um dia decisivo na vida de Otávio Espinhosa, economista da Price & Savings, uma empresa investigada por corrupção, prestes a demitir boa parte dos seus funcionários e a ter seus chefes presos. Entre a perda do emprego e o fim do casamento, o protagonista revisita suas experiências amorosas para tentar entender como chegou a tal situação. Se a sua configuração inicial como personagem parece pouco atrativa, os detalhes fornecidos sobre a sua história o tornam mais interessante para a recepção. Otávio possui uma característica particular, que também não deixa de ser um vício: consegue fazer qualquer conta de cabeça e, frente a um conjunto de números, empreende cálculos imediatamente. Esse sujeito lógico-racional e pouco afeito a reflexões sentimentais apresenta, contudo, um outro lado, responsável por criar um efeito sutilmente cômico no livro. Anos antes do momento central da narrativa, ele entrou em uma aposta com sua esposa, Rachel, e escreveu, sob o pseudônimo de Kelvin Oliva, um livro de autoajuda muito bem-sucedido, intitulado A matemática da vida, em que fornecia dicas de relacionamento e formas de alcançar a felicidade.

Como é possível notar desde o início da obra e no próprio contexto profissional de Otávio, o pano de fundo da narrativa é o Brasil atual, com sua crise política e econômica. Sem caráter dogmático, partidário ou panfletário, a narração faz diversas referências a debates entre a esquerda e a direita e também a manifestações de rua. A tensão dos embates ideológicos é centrada nos conflitos entre o protagonista e o seu filho mais novo, que, bastante caricatural, acusa o pai de ser um representante do capitalismo mais selvagem e de não se importar com a família nem com a resolução dos problemas sociais brasileiros. Trata-se de um enfoque no esgarçamento, cada vez mais frequente, das relações afetivas e até mesmo familiares decorrente das diferenças políticas. Nesse contexto, Tezza aborda, com uma nova perspectiva, uma das questões mais caras à sua obra, também presente em seu premiado romance O filho eterno (2007): os relacionamentos e, sobretudo, as diferenças entre pais e filhos. Os desafios da paternidade e os conflitos geracionais estão igualmente nas reflexões do protagonista sobre seu próprio progenitor, morto em uma prisão após ter sido condenado por uma série de contravenções penais.

Outras duas temáticas estruturantes da obra são o sexo e o amor, explicitado inclusive no título. A primeira linha do romance expõe a seguinte declaração de Otávio: “Diante do sinal vermelho, que contemplou abstraído como alguém sob uma curta hipnose, decidiu (e ao mesmo tempo imaginou as perguntas: Como assim? Você enlouqueceu?) abdicar de sua vida sexual”. Motivado pela traição da esposa, esse projeto − condenado ao fracasso desde o início − desencadeia a revisão do personagem sobre seus relacionamentos anteriores e sobre suas dificuldades de expressar sentimentos. Nesse sentido, o romance se apresenta também como uma investigação de como o homem pode perder aos poucos sua sensibilidade e se isolar do contato afetivo e social.

Para além dessas características, a principal qualidade do volume está em sua maneira de narrar os eventos. O leitor segue o desenvolvimento da trama a partir do fluxo de consciência e do monólogo interior de Otávio. Assim, os acontecimentos não surgem de forma linear, mas sim pautados pela memória do protagonista, que, frequentemente, oscila entre diferentes momentos do passado e do presente. A tessitura temporal da narrativa se torna ainda mais complexa com o constante recurso a antecipações, em uma espécie de flashforward, que não apenas apontam para o futuro das personagens, como também dão vazão às suas hipóteses sobre o que pode ocorrer em seguida. O trecho destacado abaixo, retirado do primeiro capítulo, oferece um exemplo da estrutura de sua narração em sobreposições espaço-temporais:

[…] O vazio: era preciso preenchê-lo, foi o que ele pensou, mas não disse, e Rachel fechou os olhos também sem palavras, e em menos de um minuto dormia um sono pesado ao seu lado. Um belo rosto: isso é verdade. Talvez seja só isso mesmo – e desviando os olhos do colar para um relógio de pulso de mostrador minimalista, apenas quatro linhas finas representando os números 12, 3, 6, 9 – trinta, ele somou – viu-se dizendo ao colega que em breve relógios seriam como cartolas, ou, tudo bem, ele concedeu, como pulseiras esquisitas, excrescências sem função ou índice brega de emergente, como um estagiário acrescentou com uma risada que caiu num vazio […] (TEZZA, 2018, p. 7-8).

Com uma proposta estilística definida e uma trama capaz tanto de entreter quanto de levar o leitor a reflexões importantes, A tirania do amor é um romance bem executado. Apenas dois aspectos fogem ao seu nível geral de qualidade: a constante explicação dos sentimentos das personagens, o que aponta para uma postura condescendente e desconfiada em relação às capacidades do leitor, e a criação de alguns núcleos narrativos que não são muito desenvolvidos ao longo da trama. De todo modo, ao fornecer o passo a passo do fracasso emocional e profissional do protagonista, a obra se aprofunda nas fraquezas e nos desejos humanos com algum bom humor e sem ser piegas. Em busca da matemática da vida em um ambiente marcado justamente pelo mal-estar social, pela instabilidade política e pela falta de síntese, Otávio Espinhosa/Kelvin Oliva tenta entender a complexidade dos laços afetivos. Seu principal desafio é adquirir ferramentas, para além das fornecidas pela sua espetacular habilidade de calcular, capazes de lidar com o caos da existência.

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A tirania do amor, de Cristovão Tezza (Todavia, 2018, 173 páginas). Para adquirir o livro, clique aqui.

4 - Bom

 

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