Anos JK e Jango: bons documentários políticos de Silvio Tendler

Pioneiro no ramo, Silvio Tendler conseguiu romper barreiras do mundo acadêmico, quase sempre limitado, contribuindo para o conhecimento da História do Brasil ao dirigir documentários políticos voltados ao grande público. Dois deles foram feitos ainda sob a égide da ditadura militar, o que imprime a Tendler uma postura corajosa e desafiadora, principalmente por tratar de dois personagens pouco queridos pelo regime: Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Muito mais do que duas simples biografias, Os anos JK (1980) e Jango (1984) são documentários históricos que apresentam de forma didática momentos importantes do Brasil pós-Primeira República (vulgarmente conhecida como “República Velha”), sem serem cansativos ou demasiadamente detalhistas. Por isso, tais filmes contribuem sobremaneira para uma ampliação de fontes usadas por professores em sala de aula, que não podem mais dispensar esse tipo de recurso. 

As comparações entre Os anos JK e Jango fazem sentido porque tratam de dois personagens coetâneos, que chegaram ao principal posto político do Brasil com uma diferença temporal curta e que aparecem conectados em vários momentos da história do país. Lançados no início da década de 1980, com boas bilheterias e vencedores de diversos prêmios, os documentários tiveram a narração do ator Othon Bastos (Os Anos JK) e José Wilker (Jango).

Para contar as histórias, foi preciso fazer um corte no início da trajetória de vida dos ex-presidentes. Silvio Tendler optou por abordar Juscelino Kubitschek a partir da sua entrada na política partidária, com o fim do Estado Novo. O mesmo foi feito com João Goulart, que começou a ter sua história contada a partir daquele período. Essa estratégia foi positiva para não cansar o espectador com imagens desnecessárias da infância e/ou da vida pregressa dos ex-presidentes, o que constantemente é apresentado de maneira deveras fantasiosa.

Um personagem onipresente nas duas obras, como não deveria deixar de ser, é Getúlio Vargas. O maior nome da política brasileira do século XX tem fatos de seu governo reproduzidos nos documentários, e isso se torna mais maçante em Os Anos JK, pois a impressão que fica é que o diretor esquece o personagem-título por longos instantes para focar em Vargas. Tal abordagem é mais aceitável em Jango, haja visto sua identificação patente com Getúlio.

O uso dos depoimentos, recurso quase sempre empregado por diretores do gênero, funciona mais em Jango do que em Os Anos JK. Enquanto no primeiro, a variedade de testemunhos é maior (15 ao todo), o segundo tem quase metade disso (8). É claro que a quantidade mais ampla de falas não é garantia de bom entretenimento, mas Tendler consegue mesclar bem o tempo de cada um dos depoentes em Jango, não tornando suas falas cansativas ao espectador. Em Os Anos JK, percebe-se um tempo maior para cada uma das pessoas que são entrevistadas, o que pode dispersar quem está assistindo.

Algumas questões ficam latentes na leitura política que se pode fazer do filme. Em Os Anos JK, vemos um ex-presidente marcado como alguém possuidor de um carisma sem igual, negociador, habilidoso, típico mineiro e pessedista.[1] Já em Jango, vê-se uma imagem laudatória do personagem, apresentado como um exímio lutador de direitos sociais, reformista por excelência. Chega-se ao ponto de dizer que João Goulart era filho de proprietários rurais, mas sempre “convivendo com os peões”. É claro que não podemos exigir uma visão imparcial por parte do diretor, que não tem compromisso com tal atitude, mas há momentos em que essas imagens são gritantes. Elas revelam uma ideia de trajetória linear dos ex-presidentes, o que sabemos ser problemático, uma vez que ambos tiveram posturas contraditórias em diversas ocasiões, como é da natureza do ser humano.

A questão da morte dos ex-presidentes, que faleceram inclusive no mesmo ano (1976), é tratada de forma diferente em cada um dos filmes. Em Os Anos JK, cujo personagem central faleceu em um acidente de trânsito, é levantada a suspeita de planejamento de suicídio ou assassinato. Em Jango, há um silêncio sobre as circunstâncias de sua morte, que segundo laudo médico, foi causada por um ataque cardíaco. Em um filme recente, Paulo Henrique Fontenelle voltou a especular sobre a causa mortis, baseando todo seu documentário nisso. Vale lembrar que em 2014, após a exumação do corpo de João Goulart, constatou-se que não havia resquícios de envenenamento.

Além da antiga teoria conspiratória que foi deixada de lado no filme Jango, Tendler também abriu mão de outra polêmica no filme Os Anos JK: a investigação sobre o tríplex que estaria no nome do ex-presidente que faz pensar numa espécie de revival quando se acompanham os acontecimentos do noticiário atual. Apesar de nada ter sido comprovado, Juscelino Kubistchek teve sua imagem desgastada à época por causa dessas suspeitas e de outras acusações, que passam quase despercebidas no filme.

Em geral, a reconstituição historiográfica dos fatos que aconteceram em ambos os filmes é boa. Logicamente, por conta da similitude temporal do contexto, muitos eventos iguais são narrados nos dois documentários de Silvio Tendler. Mas o esforço de contá-los de maneira diferente em cada obra é louvável por parte do diretor, o que é positivo para aqueles que quiserem assistir aos dois longas-metragens.

Um dos momentos mais interessantes do documentário Os Anos JK é a reconstituição, com várias imagens e vídeos da época, da transmissão da posse de presidente por Juscelino Kubitschek a Jânio Quadros. Os discursos elogiosos dos dois nomes, contrastantes com a acalorada campanha presidencial que precedeu à eleição de Quadros, passa a sensação de outro revival para o espectador mais atento à política partidária do dia a dia. No caso de Jango, a cena mais impactante foi logo a inicial, em que o diretor reproduz na íntegra a visita do ex-presidente à República Popular da China, com fotos até então inéditas, além da leitura do discurso de João Goulart na ocasião. Como se sabe, esse evento foi um dos detonadores da crise que seria instaurada após a renúncia de Jânio Quadros, com a recusa dos ministros militares de darem posse a João Goulart, o que desembocou na solução parlamentarista. Junto a essa cena, é chocante também revisitar o áudio do momento em que foi decretada a vacância do poder pelo Congresso Nacional em abril de 1964, com os gritos abafados da oposição e a comemoração por parte dos golpistas, sendo difícil não se sensibilizar pelo ocorrido.

Os acontecimentos que levaram ao golpe de 1964 são bem analisados nas duas obras. Novamente, vê-se que a preocupação de Tendler foi ser pedagógico com quem está assistindo, sem jamais ser entediante. Reproduzidos nos dois filmes, por motivos óbvios, abordam aspectos diferentes sobre o mesmo evento, com recursos visuais também distintos.

Também é interessante ver a abordagem feita acerca do período posterior à presidência de Juscelino Kubitscheck e João Goulart. O primeiro é visto como obcecado para retornar ao cargo, no que ficou conhecido como a campanha JK-65, interrompido pela ditadura instaurada em 1964, que perseguiu o ex-presidente. Na outra obra, João Goulart foi apresentado no período que sucedeu ao golpe a partir de algumas fotos em seu exílio no Uruguai, levando uma vida pacata com sua família, o que é transmitido de forma dramatizada, com fundo sonoro melancólico. Apesar disso, é preciso reconhecer que, em geral, a trilha-sonora é boa, e fica melhor quando o diretor lançou mão da estratégia de reproduzir os divertidos jingles das campanhas presidenciais da época.

Especialmente com o filme Jango, o espectador pode se sentir no clima da radicalização política vivida nos anos 1960, com imagens e reportagens de época. Isso é feito com cuidado primoroso, apresentando-se fotos de comícios dos dois lados da polarização, além de discursos inflamados e que explicam, em parte, o que viria a desembocar no golpe que levaria à longa ditadura militar brasileira.

Não deixa de ser surpreendente verificar a coragem e a audácia de Silvio Tendler em lançar os dois filmes em contextos tão sintomáticos para a história brasileira. No caso de Os Anos JK, o trabalho foi divulgado pouco depois da decretação da anistia pelo governo militar, em uma época de esperanças sobre uma possível volta à redemocratização; Jango, por sua vez, foi lançado na época da campanha pelas Diretas Já, com toda a euforia que depois seria abafada pela derrota da Emenda Dante de Oliveira, que daria a possiblidade do voto direto para presidente da República. Mesmo com alguns problemas, naturais em qualquer obra desse gênero, Silvio Tendler ofereceu ao telespectador dois longas-metragens essenciais para qualquer um que se interesse pela complexa história do Brasil.

[1] Segundo Lucia Hippolito (1985), grande parte dos pessedistas, ou seja, quem era filiado ao Partido Social Democrático (PSD), era formada por “raposas”, políticos experientes e maliciosos no trato político.

4 - Bom

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